25.8.06

Banhos de Caldas (Fim)
por Ramalho Ortigão

Além de muitas casas mobiladas, que se alugam pelos preços dependentes dos cómodos que oferecem, há em Vizela dois bons hotéis: o conhecido pela designação de Hotel do Padre, o mais próximo dos banhos da Lameira, e o Hotel do Cruzeiro do Sul, casa situada em lugar muito pitoresco e construída expressamente para o fim a que se destina.
Numa e noutra destas hospedarias o serviço é de mesa redonda e o preço de quarto e comida é de 1.000 reis diários por cada hóspede.
Obtêm-se facilmente carruagens por preços aproximados aos de Lisboa e Porto.

Nos estudos das principiais aguas minerais do reino, feitos oficialmente pelo sr. Agostinho Vicente Lourenço lêem-se a respeito das águas das Caldas de Vizela as seguintes linhas:
Estas águas, que apresentam temperaturas muito diferentes, têm composição química análoga; são sulfurosas, pouco mineralizadas e tendo em dissolução pequenas quantidades dos elementos das rochas vulcânicas, em cujo seio brotam.
Examinamos três destas águas, a do Mourisco, a da Lameira e a do Medico.

A água do Mourisco tem de temperatura 36 graus e meio e deixa evaporação e aquecimento do resíduo sólido a 180 graus. Este resíduo é principalmente formado de silicatos e cloretos alcalinos, assim como de pequenas quantidades de sais calcários.

A água da Lameira está situada a pequena distancia da precedente, e tem de temperatura 32 graus e meio
A água do Medico está situada nas vizinhanças das águas já descritas e apresenta propriedades físicas e composição química análogas. Tem de temperatura 37°,5 com resíduo sólido, formado na maior parte de silicatos e cloretos alcalinos e alguns sais calcários.
A água, observada no inverno (Novembro) pelo distinto geólogo Schiappa de Azevedo, marcava ás duas horas da tarde, na bica da Lameira, 60° centígrados, sendo a temperatura do ar à sombra 19°,5 com o tempo sereno
O produto total das aguas, depois dos trabalhos de captagem feitos pelo sr. Dejante, monta a 327. 000 Litros em vinte e quatro horas, havendo varias nascentes que não se exploraram por, haver já o volume de água que se reputa suficiente para as necessidades do publico.
O terreno em que brotam as águas de Vizela faz parte da grande zona de granito porfiroide que abrange o centro da província do Minho.
De todas as caldas do reino as mais quentes, depois das de S. Pedro do Sul em que se encontra o máximo valor termométrico, são as das Caldas de Vizela, de cujo uso os reumáticos tiram um incomparável partido.
Arriscado usar de aguas cujas nascentes não estejam averiguadas e cuja composição não tenha sido analisada pela química. Há pouco tempo ainda muitas pessoas que padeciam do estômago bebiam em Vizela a agua de certa bica celebrada na localidade pelas altas virtudes gástricas que muitas pessoas lhe atribuíam. Procurada ultimamente a nascente desse veio, reconheceu-se que ele era formado pelo esgoto da água servida nas tinas da Lameira. Aviso aos incautos, para que a recordação do mais nojento desastre não venha um dia a aliar-se nas suas carteiras de banhistas com outras lembranças mais ternas!

Vizela, 12 de Julho de 1875

24.8.06

Banhos de Caldas (III)
por Ramalho Ortigão

Não eram grandes os divertimentos que a terra proporcionava então ao banhista e ao viajante. Em honrada verdade devo mesmo acrescentar que esses divertimentos eram nenhuns. Cada um inventava para seu próprio uso os meios de se entreter. Havia a conversação na botica, no barbeiro, na loja do Bento da ponte, e ao pé dos banhos, debaixo do alpendre. E nada mais.
Mas faziam-se partidas de pesca no rio, à linha ou com o mingacho, uma rede semelhante aos camaroeiros, da mesma forma das que se usam para caçar os insectos.
Como a estação se prolonga desde o meados do mes de Maio até o fim de Outubro, caçava-se do mes de Agosto em diante, ás codornizes nos restolhos, e ás perdizes e ás lebres nas serras adjacentes.
Depois havia os passeios à Cascalheira, as digressões a Braga, a Guimarães, a Fafe, as romagens ao Bom Jesus do Monte, os pic – nics, as burricadas.
A localidade é, além disso, muito interessante para os estudos arqueológicos. Algumas piscinas conservam ainda relíquias de mosaico, fragmentos de antigas obras de mármore, do tempo da dominação romana. Em escavações empreendidas nestas paragens, não só no próprio circuito dos banhos, mas nas suas redondezas, acham-se toros de colunas, capiteis, argamassas, tijolarias, lápides com inscrições, moedas e medalhas. Estas são romanas ou celtibéricas; das segundas possui um exemplar primoroso o ilustre académico Pereira Caldas, professor do liceu nacional de Braga; as primeiras são do tempo de Tibério, entre as lápides encontradas em Vizela há uma de Tito Flávio Archelau, legado augustal na Lusitânia nos anos 80 a 90 depois de Cristo, no reinado do imperador Dauriciano, edificador em Roma de umas termas famosas. Esta lápide, com a configuração de cimalha de pórtico, acha-se recolhida na quinta de Aldão, do concelho de
Guimarães, e tem a seguinte inscrição:

DEDICAVIT
T. FLAVIVS. ARCHELAVS
CLAUDIANVS
LEG. AVG.


Outra lápide com inscrição foi encontrada no Mourisco em 1841, e conserva-se hoje no quintal da Sr.ª D. Maria da Costa, junto da ponte Velha do Vizela, na margem esquerda deste rio.
Há ainda na quinta do Paço, em S. João das Caldas, uma lápide votiva ao deus Bormanico como a que existe na propriedade da Sr.ª D. Maria da Costa. A lápide que se acha na quinta do Cyrne, segundo, diz Emilio Hubner, ou na quinta do Paço, segundo nos informa o digno professor Sr. Pereira Caldas, tem a inscrição seguinte:


C. POMPEIVS
GAL. CATVRO
NIS. F (il). (r) E (et)
VGENUS. VX
SAMENSIS
DEO. BORMA
NICO. V. S. L. M
QVISQVIS. HO
NOREM. AGI
TAS. ITA. TE. TVA
GLORIA. SERVET
PRAECIPIAS
PVERO. NE
LINAT. HVNC
LAPIDEM

São dignas, ainda da atenção dos antiquários uma furna que existe no monte de Lijó e uma antiga capelinha, situada no monte da Santa, freguesia de Santo Adrião. Defronte desta capela, na freguesia de Tagilde, na margem direita do Vizela, fica o lugarejo da Arriconha, onde nasceu S. Gonçalo de Amarante.

23.8.06

Banhos de Caldas (II)
por Ramalho Ortigão
Ao outro dia acordei ás seis horas e abri a minha janela. Num cercado feito em volta da casa com ripes de pinho, canas e silvas com amoras, os galos espenejavam-se e cantavam ao sol; os coelhos brancos gesticulavam avidamente ao pé de um braçado de couves, ou fugiam ás guinadas. Em baixo, a dez metros de distância, passava o rio entre choupos e castanheiros. No meio do rio havia um moinho, redondo, vestido de musgo e de heras, coberto com um telhado de colmo enegrecido, com grandes pedras pousadas em cima. A água cabia no açude com um estrépito diligente e alegre, e a roda da azenha, gotejando, girava lentamente na sombra húmida.
Defronte, na colina oposta, sobre a outra margem, elevava-se a pequena igreja de S. Miguel , com o seu campanário caiado de branco, tendo ao lado as casas da residência paroquial.
Á varanda da casa, que deitava para o passal, estava a essa hora o reitor, um velho de oitenta anjos, magro, cabelos brancos saindo do seu barrete de retrós e caindo-lhe de cada lado do rosto e sobre a gola da sua longa bata desabotoada; calção curto, meia de lã preta. Ao lado dele uma rapariga de dezoito anos, com um longo colarinho redondo, de folhos, um lenço amarelo de grandes ramagens carmesins encruzado no peito e atado na cinta, as tranças enroladas na nuca dentro de um lenço escarlate, amarrado segundo a graciosa moda do sitio, deixando descoberto o alto da cabeça e pendendo numa ponta sobre as costas.
Ela tinha no braço um cabaz e deitava mãos cheias de milho ou dava-o a comer na sua própria mão ou na mão do padre a toda a espécie de aves adejando no ar ou pousadas na varanda e no beiral do telhado. Eram galinhas, rolas, pombos, pardais, e uma grande arara, presidindo a tudo, pousada no combro do padre.
A rapariga de quando em quando metia milhos na boca, e deitava a cabeça para trás. Então alguns pombos mais estimados, de leque, iam dar – lhe bicadas nos dentes.
Ao pé da minha casa um homem, vestido de saragoça, com grossos sapatos, com o chapéu deitado para traz, a transpirar, descansava com um pé no degrau da escada exterior, tendo um côvado na mão e pousado no joelho o seu fardo constante de peças de palmo, um cobertor de papa com barra azul e uma caixa de pinho chata e quadrada, em que os bufarinheiros trazem as agulhas, as linhas, as rendas, os lenços finos de cambraia e a colecção dos Sabonetes

Banhos de Caldas (I)
por Ramalho Ortigão

Nesta minha demanda por coisas de Vizela, referi já alguns dos escritores, poetas, romancistas, jornalistas e outros que, nos tempos áureos das termas e no período do romantismo por excelência, aqui passavam parte do seu tempo de férias e, não raras vezes, escolhiam esta terra e alguns dos seus melhores recantos para desenvolverem os tramas dos seus romances, ensaios ou simplesmente como impressões de viagens ou estadia.

O autor das “Farpas” foi um desses insignes jornalistas que discorreu sobre Vizela, no seu livro “Banhos de Caldas”, escrito em 1875, do seguinte modo
:


“A freguesia de Vizela está situada a cerca de 5 quilómetros da cidade de Guimarães, no coração do Minho. É um vale ameníssimo coberto de vegetação ensombrado de carvalhos e de castanheiros, rodeado de campos de milho enquadrados em renques de árvores de que pendem as vinhas, banhado pelas águas do rio Vizela, que atravessa a povoação. Na margem direita fica a Lameira, a parte mais povoada; na margem esquerda está situado o Mourisco. Uma ponte de pedra comunica as duas margens. O que escreve estas linhas recorda-se, ao traça-las, da primeira manhã que passou nestas caldas há dezoito anos.
Chegara na véspera, de noite, a cavalo numa mula, embrulhado no seu capote de jornada, com uma clavina no arção do selim ao longo de uma das bolsas do alforge, conforme o uso de todos os que nesse tempo viajavam no Minho. Tinha atravessado, guiado por um almocreve, a serra da Falperra cortada de fundos barrocais em que a agua dos veios que corriam chapinhava contra os estribos de pau; e as madressilvas suspensas em grossos festões dos valados musgosos envolviam os caminhantes.
Era no princípio de Junho. Cantavam os rouxinóis nas balseiras. Das elevações da serra descobria-se a imensa paisagem que se desenrola até o mar, banhada pelo luar que batia as casinhotas brancas do santuário do Bom Jesus, atufadas entre as grandes massas escuras do arvoredo. Ouvia-se o gemer dos pinhais e das carvalheiras com um murmúrio solene e monótono como o das vagas, cortado a espaços pelo tilintar dos choca1hos de uma récua de machos que ia ao longe guiado por uns almocreves; e de quando em quando um coelho surpreendido e assustado atravessava com dois pulos, por diante de nós, o carreiro dos viandantes.”

20.8.06

Igreja de S. Paio de Vizela

Por ser interessante a sua leitura, transcrevo do Inquérito Paroquial de 12 de Maio de 1842, a descrição sobre a Igreja de S. Paio de Vizela, feita pelo Pároco da altura, Abade Jozé Manoel Teixeira Moreira
Tem a igreja de comprido 95 palmos, e de largo 25, ignoro sua fundação, sua invocação é S. Paio, o qual segundo a melhor opinião é santo português e das nobres famílias dos Cunhas e Sampaios deste reino, nascido no território de Coimbra, foi sobrinho de Hermogio, bispo de Tui, e mártir de 13 anos. Veja-se Frei Bernardo de Brito na 2ª parte do Epítome das Histórias Portuguesas, e D. Rodrigo da Cunha nas adições, a primícia parte da história de Braga, Sandoval na Crónica de el-rei D. Afonso VII a qual escreveu antes ser bispo de Tui, e outros que escreveram a sua vida; e como esta igreja está situada em uma elevação sobre o Rio Vizela, por isso se denomina S. Paio de Vizela, e antigamente S. Paio de Riba Vizela. Não há tradição ou documento algum de onde conste que já estivesse em outro lugar, sempre foi de Colação Ordinária, seu rendimento no tempo dos dízimos (do que melhor era não falar) andaria por 250$000 réis fora a3ª de todos os frutos, que pagava deste o tempo do Senhor Dom Frei Caetano arcebispo que foi de Braga, para o Conservatório dos Meninos Órfãos da [ilegível] em Braga, a residência fica contígua à mesma igreja, no que além do altar-mor há dois colaterais, um com invocação de S. Gonçalo que foi abade nesta freguesia, no qual está a sua imagem, a de Santo António advogado das coisas perdidas e da Santa Luzia advogada da vista, e outro é de Nossa Senhora do Rosário em que este também a imagem de milagroso mártir S. Sebastião advogado da peste, e de Nossa Senhora da Lapa. Tinha esta igreja bastantes trastes de prata, um grande lampadário de que lhe foi roubado pelos ladrões, de que muito abunda neste país, o resto foi para os franceses, e agora nem prata nem cobre tem.

16.8.06

Portugal Artístico

Na procura de novos artigos para este espaço, rebusquei nos velhos alfarrábios que possuo e encontrei esta preciosidade. “Portugal Artístico”, obra essa que tinha adquirido há já um bom par de anos no meu alfarrabista habitual, na cidade do Porto.
É uma completíssima Publicação Ilustrada da Livraria Magalhães e Moniz, da Rua dos Loyos, no Porto e foi publicada em 1905.

Porque se tornaria fastidioso transcrever todo o texto ali publicado nas páginas 161, 162,163,164,165,166 e 167, permito-me, para além das belas imagens que transporto para aqui, transcrever o seguinte: Da Fonte dos Abraços à Ilha dos Amores, desde a Ponte Velha toda vestida de musgo e hera, até ao Chalet Wilby, deliciosa casinha perdida na espessura d’uma collina toda viridente, da Lameira ao Monte de S. bento, das margens salutares, frescas e amenas do pitoresco rio Vizella, até aos rústicos montes que dominam esta aprazível povoação, em toda a parte e sempre, o olhar curioso descansa em frescas paisagens e deleitosos lugares, cheios de poesia e encanto. Pelo rio acima e na extensão de dois kilómetros, navegam lindos bateis, por entre margens tão belas como as mais celebradas da Suissa.”

Resta-me dizer que todo o artigo publicado é da autoria de Alberto Velozo D’Araujo e foi escrito em Lisboa em Abril de 1904, com fotos da autoria do Sr. Carlos Brandão

13.8.06

Tratado de Tagilde


Divino Salvador de Tagilde é uma freguesia pertencente ao Concelho de Vizela e ao Arcebispado de Braga, sendo única no nome em Portugal.

Falar de Tagilde, é falar na assinatura do Tratado de Tagilde, entre o Rei Português D. Fernando, o Formoso e o Duque de Lencastre, de Inglaterra.

Mas deixemos que sejam outros a “falar”

“O Tratado de Tagilde foi um tratado firmado em 10 de Julho de 1372 em Tagilde, freguesia do concelho de Vizela. Foi um dos mais importantes acordos políticos de Portugal. O rei português D. Fernando assinou com os delegados do duque de Lencastre o chamado “pacto de Tagilde”. Esse acordo constituiu o primeiro instrumento jurídico de tratado da aliança entre Portugal e a Inglaterra, e ainda hoje perdura. Nesse pacto, Portugal tomava partido pela Inglaterra contra Henrique II de Castela e os seus aliados franceses. Junto à igreja matriz de Tagilde, encontra-se desde 1953 um elegante padrão em pedra que memoriza o acto entre os dois países” (in.Wikipédia)

“Simultaneamente com o casamento do rei, [em segredo, com D. Leonor Teles] negociava-se com o maior sigilo um acordo que nos faria regressar à orbita inglesa. Em Julho de 1372 o rei [D. Fernando] dirigiu-se secretamente a uma pequena aldeia perto de Guimarães – Tagilde – e encontrou-se ali com dois embaixadores que tinham acabado de chegar de Londres: um deles era um hábil fidalgo da Corunha, que tomara o partido de D. Fernando e o acompanhara a Portugal em 1369: João Fernandes Andeiro. O segundo era um homem de armas, escudeiro do Duque de Lencastre, filho do rei de Inglaterra Eduardo III. O Duque casara naquele mesmo ano com D. Constança, filha de Pedro I de Castela, e por isso considerava-se herdeiro do trono de Castela”. (História de Portugal – José Hermano Saraiva - Selecções Readers Digest)

Como curiosidade, refira-se que esta aliança entre Portugal e a Inglaterra, foi firmada durante o período em que Vizela dispôs de independência administrativa (durante 47 anos)...
“no ano de 1361, el-rei D. Pedro doou a seu filho, o Infante D. João, as terras de Riba Vizela às quais concedeu independência administrativa. Conflitos gerados entre os Conventos de Roriz e de Guimarães, a par de outras vicissitudes da época, levaram à extinção da independência administrativa de Vizela, em 1408”.